!º ano…"herói" nacional

Fonte:http://www.conexaoprofessor.rj.gov.br/temas-especiais-25b.asp

Tiradentes esquartejado, obra de
Pedro Américo – 1893

Em 21 de abril de 1792, Joaquim José da Silva Xavier caminha para o cadafalso à semelhança de Cristo, Salvador. Beija os pés e perdoa o carrasco. Recebe a alva. Em seguida, despe a camisa para receber o sagrado entre as mãos. Mas sente pesar o crucifixo… Generoso, arrependido e castigado, assente a pena como a redenção única dos próprios pecados. E caminha. Até que amanhece o dia que lhe abre a eternidade.

Coincidências à parte, terá o povo brasileiro experimentado a Paixão de Cristo milênios mais tarde, em pleno território nacional? Com direito a Judas, 12 apóstolos e ressurreição? A versão oficial comunicada pelos livros escolares em todo o país diz que sim, só que, desta vez, estrelada pelo grande líder da Inconfidência Mineira: Tiradentes.

Forjado pelos franciscanos, confessores dos inconfidentes, o ideal cristão foi projetado na figura do alferes – e não à toa… A imagem resignada de nosso mártir vem a calhar com a memória propagada pela política vigente na época, que se confundia com o próprio discurso religioso: humildade, arrependimento e esperança de vida eterna.

Segundo os confessores, Tiradentes recebeu, sereno e convencido da gravidade de seus atos, a sentença condenatória. Após a leitura do Decreto Régio, que apenas o condenava à morte, sua reação foi de alegria pelos outros réus favorecidos pelo perdão real: “Se dez vidas eu tivesse, dez vidas daria para salvá-los”. Dito e feito. Ao proclamar responsabilidade exclusiva pelo movimento, atraía Tiradentes toda a culpa para si, rendendo-se ao martírio.

Ao que consta nos registros dos frades, não houve, por parte dos acusados, qualquer resistência. Apesar de depoimentos contraditórios, nenhum negara a participação de Tiradentes, nem seu entusiasmo fanático e, por vezes, imprudente pela revolução.

Também para a Coroa, o alferes servia como vítima ideal: manifestava os ressentimentos de um típico “revolucionário francês”. E mais… não era ninguém. Sem pertencer à elite e tampouco à política oficial, lhe restaria um único questionamento: “Quem é?”. “Não é pessoa que tenha figura, nem valimento, nem riqueza”, responderia o desembargador Torres, juiz do processo, à carta régia enviada de Lisboa. Afinal, quem consideraria um movimento chefiado por um humilde Tiradentes? Enforcá-lo, portanto, teria o efeito máximo como advertência e o mínimo como repercussão.

E o mito sobrevive…

Não mais por franciscanos. Desta vez, eram os primeiros republicanos os construtores do nosso “Cristo humanizado”, perfeito herói nacional. Sob a herança de um mártir cívico-religioso – integrador e portador da imagem do povo inteiro – Tiradentes jamais deveria assumir a máscara de um herói republicano radical. Acertaram no alvo. O alferes caiu no gosto popular e nunca mais deixou de estar presente no imaginário político e social do brasileiro.

E foi assim que o secundário papel de Tiradentes e a “lavagem cerebral” a que o teriam submetido na prisão transformaram o ardor patriótico de um revolucionário em fervor religioso. Até mesmo os artistas plásticos contratados por franciscanos, republicanos – ou mesmo autônomos -, o representariam à imagem de Jesus no patíbulo. Com o transcorrer dos anos, a memória e a figura de Tiradentes continuariam a ser esquartejadas, distribuídas como saber didático em todo o país.

Tal qual o herói nacional, o mito de origem moderno sobrevive no tempo e espelha o ideal libertário do brasileiro. A historiografia da Inconfidência Mineira e o jogo de interesses políticos e ideológicos cumprem a tarefa de perpetuar o sagrado, com boas doses de ilusão no consciente coletivo. E a cena cristã brasileira acalenta a sua maneira o virtuoso Tiradentes.

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