Tentativa Frustrada de Eugenia Cultural em Pleno séc. XXI

Nobres Cavalheiros e Delicadas Donzelas…
Apesar de não gostar muito da leitura da Folha de São Paulo, semana passada o José Geraldo Couto me proporcionou a leitura do que eu já havia pensado, mas não havia escrito, ainda.
Ele propõe discutir os últimos acontecimentos do esporte (Adriano e Vagner Love), entretanto, nos convidando a sair do censo “Globo” comum, e discutir realmente o que importa: “o que está errado, não quem errou”.
Os jornalistas de uma maneira geral têm sérios problemas em compreender como pode haver alguém prefere o bom e velho funk da favela à rebuscada bossa nova ou jazz do Leblon, entretanto, a mim parece muito claro e invoco a máxima, aqui adapta, “o homem sai da favela, mas a favela não sai do homem”.
Mas o que Vagner Love, Adriano e Ronaldinho não sabem ou esqueceram é que no Brasil a cultura é definida segundo a conta bancária, ou seja, ao pobre, como diria Almicka e Chocolate, somente o que “som de preto e de favelada”, e ao rico pode até “não ficar parado” desde que esteja no asfalto, de preferência em alguma cobertura

Tentando não sair em defesa de Love, pergunto: “onde estava a Globo quando Love era uma criança, e a ele ficava restrito somente o que fosse de preto e favelado?”.

Agora por causa de alguns milhões na conta bancária, querem cobrar que ele só ande no asfalto, vire branco, e seja amiguinho da Narcisa Tamborindeguy, isso sim seria sacanagem.
Boris Fausto a eugenia cultural do início do século XX está mais vivo que nunca em 2010.

eugenia
(latim científico eugenia)

s. f.
Conjunto dos métodos que visam melhorar o património genético de grupos humanos; teoria que preconiza a sua aplicação. = eugénica (tipo Hitler)

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Nostalgia na lama
José Geraldo Couto
Folha de São Paulo – 21/03/2010

Talvez não seja correto dizer que o esporte é um espelho da sociedade, mais a maneira como os fatos do esporte e seu entorno são lidos pela mídia certamente diz muito sobre ambas (a sociedade e a própria mídia).
O “mea culpa” do golfista Tiger Woods diante das câmeras expôs muito mais que suas infidelidades conjugais. Colocou a nu uma cultura manifestamente puritana que transforma em espetáculo midiático a repressão de suas pulsões.
Como se sabe, muitos norte-americanos, talvez a maioria, acham que gostar de sexo é uma espécie de doença.
No Brasil, a cobertura e a repercussão crítica dos recentes escândalos envolvendo os astros do futebol Adriano e Vagner Love revelam, entre outras coisas, um indisfarçável preconceito de classe.
O que mais escandaliza a chamada crônica esportiva, com honrosas exceções, parece ser o ambiente em que os personagens foram “flagrados”. A própria recorrência desse verbo é significativa, como se estar num baile funk ou simplesmente na favela fosse por si só uma atitude ilícita ou, no mínimo, suspeita.
Na Chatuva e na Barra
O vínculo entre os termos favela e crime, martelado durante décadas pelos meios de comunicação, parece ter-se tornado indissolúvel. Condena-se Adriano não tanto por trocar socos com a namorada, mas por fazê-lo no morro da Chatuva, e não numa cobertura na Barra da Tijuca ou num palacete em Milão.
O viés de classe nunca ficou tão evidente, aliás, como quando o jogador, um ano atrás, deixou de se reapresentar a seu clube, a Internazionale de Milão, e se refugiou durante três dias no bairro onde se criou, no Rio de Janeiro. A perplexidade foi geral, na imprensa e no mundo futebolístico.
A pergunta que se repetia era: como um sujeito abre a mão de milhões de euros, do destaque num clube de ponta, de uma cidade sofisticada, para voltar à favela? O corolário, explícito ou subjacente, era mais ou menos o seguinte: “Quem nasce na maloca nunca vai deixar de ser maloqueiro”.
Uma espécie de “nostalgia da lama” arrastaria Adriano para baixo – ainda que, topograficamente, para cima.
O que escandaliza, no fundo, é a recusa em aderir aos valores, condutas e discursos tornados praticamente compulsórios para quem “vence” na nossa sociedade.
Não se perdoa Vagner Love por optar por um baile funk na Rocinha em vez de uma boate na zona sul do Rio. No primeiro, estão os “bandidos”; na segunda, a gente de bem.
Pouco importa que o tráfico que mata tanta gente no morro se alimente do consumo recreativo de muitos habitués das casas noturnas chiques.
Num país de “malandros com contrato, com gravata e capital”, não escandaliza ninguém que Kaká sai publicamente em defesa dos líderes de sua argentária igreja, investigados em dois países por estelionato e lavagem de dinheiro.
Kaká, diz a crônica em uníssono, é um rapaz de boa cabeça, de boa família, de boa “estrutura”. Mas Vagner Love aparecer num baile na Rocinha ladeado por traficantes armados (algo que talvez ocorresse com qualquer celebridade que visitasse o local) é intolerável.
Motel e travestis
Para reforçar a constatação de que, entre nós, o viés de classe é ainda mais forte do que o viés moralista, um caso exemplar é o de Ronaldo, “flagrado” (olha o verbo de novo) com três travestis num motel do Rio.
O que mais se ouviu, nos bastidores da imprensa, foi: “Como é que um sujeito com grana que ele tem vai se meter com travecos de rua? Era só pegar o telefone e encomendar a perversão que quisesse, no sigilo do seu apartamento ou de um hotel de luxo”.
Ou seja, dependendo do montante gasto, do cenário e dos figurinos, tudo é bonito e aceitável.
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Ao pessoal que não entendeu o recado, aqui uma letra do Racionais Mc’s que conta um pouco mais do favelado que agora tem dinheiro, mas dispensa o convívio com atores globais.

Aí,
Na época dos barraco de pau lá na pedreira
Onde vocês tavam?
O que vocês deram por mim?
O que vocês fizeram por mim?
Agora tá de olho no dinheiro que eu ganho
Agora tá de olho no carro que eu dirijo
Demorou, eu quero é mais
Eu quero é ter sua alma
Aí, o rap fez eu ser o que sou
Ice blue, Edy rock e Klj, e toda a família
E toda geração que faz o rap
A geração que revolucionou
A geração que vai revolucionar
Anos 90, século 21
É desse jeito
Aí, você saí do gueto,
Mas o gueto nunca saí de você, morou irmão
Você tá dirigindo um carro
O mundo todo tá de olho ni você, morou
Sabe por quê?
Pela sua origem, morou irmão
É desse jeito que você vive
É o negro drama
Eu não li, eu não assisti
Eu vivo o negro drama, eu sou o negro drama
Eu sou o fruto do negro drama
Aí dona ana, sem palavra, a senhora é uma rainha, rainha
Mas aí, se tiver q voltar pra favela
Eu vou voltar de cabeça erguida
Porque assim é que é
Renascendo das cinzas
Firme e forte, guerreiro de fé
Vagabundo nato!

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